Vencer para viver
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Vencer para viver

Antes de se tornar cidadão do mundo, o ser humano vive 9 meses no útero da mãe. E quando sai de lá, faz uso de um método infalível para contar que chegou: o choro.

DSC_1083Pamela  estuda Jornalismo e sonha em daqui 10 anos estar casada, com filhos e trabalhando na profissão que amada | Fotografia: Flávia do Carmo

Porém, Pamela Cavalhieri preferiu ser uma dessas pessoas que sabem como ser discretas. Chegou nesse mundão sem muito alarde, quietinha.

No primeiro dia de janeiro de 1992, em meio às comemorações do ano novo e o feriado da Confraternização, nascia pelas mãos das enfermeiras do Sanatório São Paulo, sem a ajuda de um médico mais experiente, ela, que mal sabia que trazia consigo uma bagagem de superação. Se não fosse tão ansiosa, a menina de Campos do Jordão poderia ter esperado um pouco mais, mas resolveu chegar ao mundo com apenas sete meses mostrando como queria ser adiantada na vida. A falta de lágrimas, no entanto, não era coisa boa naquele momento. Significava sua primeira luta. A ausência de oxigênio durante o parto prematuro causou a paralisia cerebral, que traria algumas sequelas para o seu corpo, mas não para a mente.

Durante a infância, viveu duas realidades distintas. Em casa, todos a tratavam normalmente e ela nunca se sentiu diferente das outras crianças. Na escola, todos tinham curiosidade de saber o que havia acontecido de errado. Sem entender o porquê de tantas perguntas, ela não quis mais estudar. A mãe de Pamela, então, achou que era hora de esclarecer algumas coisas. Durante uma conversa, contou à filha sobre o ocorrido no parto e para sua surpresa, Pâmela não se intimidou.

A jovem sabia que precisaria do apoio de pessoas desconhecidas para muitas coisas, mas isso apenas a fortaleceu e a ajudou a reconhecer as próprias limitações. Estudou na APAE e, quando decidiu mudar para uma escola convencional, a coordenadora da instituição disse que ela nunca iria conseguir enfrentar esse tipo de ensino. Sem desistir, Pamela continuou em seu caminho e sabia que em algum dia, provaria que ‘nunca’ era tempo demais. Um tempo que ela não podia deixar passar.

DSC_1068Apesar das diversas dificuldades a jovem não se deixa abater | Fotografia: Flávia do Carmo

Depois de alguns anos, durante a formatura da oitava série do ensino médio, ela avistou na primeira fileira do auditório onde ocorreu o evento, a mulher que no passado disse que ela não seria capaz. Naquele momento o diploma significava muito mais do que uma etapa concluída. Significava que ninguém sabe até onde consegue ir, a não ser que tente. E que não se pode julgar as capacidades humanas tendo em vista apenas as limitações e os próprios pré-julgamentos.

Determinada, ela não se nega a fazer qualquer coisa só por causa de sua deficiência. Em casa, deixa as muletas de lado e se apoia nos móveis para se locomover, ajudar nas tarefas de casa e cuidar da irmã mais nova. Paula Oliveira, a mãe de Pamela, zelosa como as matriarcas costumam ser, prefere evitar que a filha faça esforços físicos, mas a jovem de personalidade forte jamais esperou qualquer coisa dos outros. Aprendeu a se virar sozinha e faz isso muito bem, obrigada.

DSC_1093Pamela ensina aos outros que todos nós somos capazes de conquistar o que quisermos| Fotografia: Flávia do Carmo

Pamela não se acanha em desabafar que o preconceito da maioria já inclui uma vasta gama de adjetivos ruins. Mas ela tira de letra. O que alguns chamam de castigo, ela chama de lição de vida. Quando peço que ela se defina com uma palavra, sem hesitar, ela responde: “alegria”. Ela se sente feliz por ser quem é e não tem medo de dizer que talvez, se não tivesse passado por tudo que passou, não daria valor às coisas pequenas e simples da vida. Ela que já teve que lavar o rosto numa bacia que a mãe levava até o quarto pela manhã, logo após passar por uma operação em que não conseguia se movimentar, agora tem a chance de hoje levantar sozinha da cama para ir ao banheiro, isso já é uma conquista para a jovem.

Embora a deficiência que atingiu as pernas e os braços de Pamela não seja necessariamente um obstáculo, a dificuldade de locomoção a impossibilita de realizar algumas atividades. A menina que sempre soube superar seus próprios limites, ainda tem dentro de si muitas vontades. Com 23 anos, carrega pequenos sonhos de criança. Seu desejo não é subir uma escada e sim andar de bicicleta e ter a sensação de liberdade que a muleta não a proporciona, para ela seria como ganhar asas.

Asas essas que a levaria para longe, para novos sonhos, novos lugares. Mas ela não se deixa abater, se não consegue ir de bicicleta e fazer o trajeto de forma rápida, ela vai da maneira como sempre fez até agora, de muleta, com passos pequenos, devagar, mas que chegam onde ela quiser ir, porque para Pamela Cavalhieri o que nos limita somos nós mesmos.

O que diferencia você dela são os números de células ativas no corpo. O que diferencia ela de você é a força de multiplicar os dias, e viver, e se realizar. Os números não são desculpas! São desafios. Pamela não tem asas, mas tem o poder de nos fazer voar com sua história de amor pela vida.

DSC_1027Pamela já superou diversos preconceitos e hoje se sente mais forte para lidar com isso | Fotografia: Flávia do Carmo
Revisão: Marcos Fernandes

Eu me chamo Flávia do Carmo

4 thoughts on “Vencer para viver

  1. “Quando deixamos de murmurar e reclamar o que não temos, passamos a enxergar e a amar o pouco que temos. Então esse pouco se torna muito, se torna grande”!! Parabéns Flávia (Jornalista Curiosa!) linda matéria, linda história de superação!!!

  2. Como a Pamela é linda.
    Que exemplo de vida, que inspiração.
    Me deu vontade de fazer tantas coisas, coisas que tenho medo e digo a mim mesma que não consigo.
    Quem é a Pamela? Estuda contigo?
    Parabéns pela matéria.
    Um beijo e boa sorte.

    1. Olá Ca, a Pamela é muito especial!
      Ela estuda comigo 😉
      A história dela é linda, nos dá coragem para seguir em frente. Conviver com ela é um presente de Deus!
      Obrigada pela visita, volte sempre! Beijos <3

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