Tecnologia ajunta, mas também afasta

Em pleno século 21, mais do que nunca, a tecnologia se destaca e torna parte das nossas vidas

Jornalista Curiosa (8)Fotografia: Flávia do Carmo

Com a necessidade de estar sempre atualizado, lendo notícias, postando fotos, digitando uma mensagem, gravando um áudio, o celular vem agregando muito na vida das pessoas, tornando-se um passatempo para suportar uma fila no banco, por exemplo, mas nem tudo é benéfico. Há pontos negativos que a tecnologia trouxe para a sociedade, estar com os amigos é importante, mas só depois de fazer aquela selfie e postar no Instagram.

Conversei com a psicóloga Ana Lúcia Gouvêa para falarmos da tecnologia que ao mesmo tempo que nos aproxima também nos distancia.

 

Jornalista Curiosa: De que maneira a tecnologia favorece a relação interpessoal?

Ana Lúcia: Favorece na diminuição do impacto de fatores emocionais como timidez e auto estima, porém não de forma definitiva.


JC:
E de que maneira ela desfavorece essa relação?

AL: Desfavorece a partir do momento que te causa prejuízo funcional, inibindo a socialização. A pessoa prefere os contatos sociais do que presenciais e sente inclusive sintomas físicos mediante a ausência da tecnologia. Sou totalmente a favor da tecnologia, porém a socialização deve prevalecer. O estar presente, o viver ao lado, é fundamental. Não se pode perder o saber conversar olhando nos olhos, pois os contatos virtuais são geralmente baseados em superficialidade e fragmentação e não existe uma troca real.

A tecnologia da mesma forma que nos favorece a um maior contato com várias pessoas, porém se não dosada, nos distancia do “mundo real” onde o contato é de extrema importância para nossa sobrevivência em sociedade.

 

JC: Como você avalia essa geração que trocou o cinema com os amigos, o sorvete ou a pizza, pela tela do celular?

AL: É uma pena que hoje em dia, algumas vezes, uma selfie seja mais importante que o contato com os demais, apenas para registrar o momento e não mais os vivenciar. Devemos criar as crianças as envolvendo com a tecnologia desde cedo, porém buscando ter muita parcimônia nessa introdução a tecnologia e fazendo as valorizar acima de tudo o convívio social.

Só para ilustrar: Em 2015, uma pesquisa realizada pela AVG Technologies com famílias de todo o mundo mostrou que 66% das crianças entre 3 e 5 anos de idade conseguia usar jogos de computador, mas apenas 14% era capaz de amarrar os sapatos sozinha.

Jornalista Curiosa (1)Fotografia: Flávia do Carmo

JC: Qual o perfil da sociedade atual?

AL: Um perfil altamente competitivo e inovador e cujas pessoas tem que buscar informações em uma velocidade absurdamente rápida e com isso, muitas vezes, ocasionam ausências de experiências afetivas com qualidade e aumento de ansiedade/ stress. Porém, há como se manter o equilíbrio e não deixar que a tecnologia impacte na vida social.

 

JC: Um ponto positivo e negativo da tecnologia.

AL: Positivo: informação imediata e negativo: dessocialização

 

JC: Como você avalia essa dependência que os jovens, principalmente, têm da tecnologia?

AL: Essa dependência é global e é possível que estes adolescentes apresentem prejuízos quanto a esse uso indiscriminado. Os prejuízos mais comuns são; piora no âmbito escolar, isolamento social e conflitos familiares.

Geralmente as pessoas que apresentam esta compulsão tecnológica devem ter acompanhamento de um profissional a fim de diagnóstico de exclusão, pois geralmente podem estar apresentando sinais depressão, ansiedade social, déficit de atenção/hiperatividade e agressividade.

 

JC: Qual o consumo “correto” dessa tecnologia?

AL: O ideal é que apenas depois dos 2 anos de idade as crianças comecem a ter contato com esses aparelhos e por tempo limitado. Até os 5 anos, as crianças só deveriam ficar no máximo 1 hora diante das telas. O tempo aumenta para 2 horas para crianças de 6 a 12 anos e para 3 horas a partir dos 13 anos, isso incluiria todos os equipamentos tecnológicos, como tv, smartphone, tablet entre outros. Tais dados foram divulgados em 2014 pela Academia Americana de Pediatria e a Sociedade Canadense de Pediatria. Já para adultos é muito relativo, deve sempre prevalecer o bom senso e não deve haver prejuízos nos relacionamentos e convívio com a família, amigos e trabalho.

Jornalista Curiosa (10)Fotografia: Flávia do Carmo

JC: Como saber se a pessoa é dependente da tecnologia? Quais os “sintomas”?

AL: Segundo o Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo, há mais de 10 programas para o tratamento de transtornos compulsivo no instituto, sendo a compulsão que é a mais procurada é: Internet. Porém, normalmente esta compulsão vem associada a outros transtornos emocionais.

Em 2006 o Núcleo de Pesquisas em Psicologia e Informática da PUC preparou um relatório com alguns procedimentos comuns a pessoas viciadas em internet. Tomando por base os casos atendidos desde 1995, alguns adictos apresentam como principais características:

Preocupação
O viciado fica constantemente preocupado com a internet quando está off-line e mal consegue pensar em outra coisa.

Necessidade
O indivíduo tem a necessidade contínua e crescente de utilizar a internet como forma de obter a excitação desejada.

Irritabilidade

Quando tentam reduzir seu tempo na internet, o adicto apresenta reação irritada e grande dificuldade de aceitação.

Fuga
Utilização da internet como forma de fugir de problemas, ou de aliviar sentimentos de impotência, culpa, ansiedade ou depressão é o modo como o viciado se relaciona com ela.

Mentira
O viciado tem o hábito de mentir para familiares e pessoas próximas com o intuito de encobrir a extensão do seu envolvimento com as atividades on-line.

Prejuízos
Com o excesso de tempo na internet, o adicto compromete sua vida social e profissional, evitando compromissos off-line.

Lesões
O uso prolongado do computador causa problemas nas articulações motoras utilizadas na digitação, o que causa lesões por esforços repetitivos (LER).

Apatia
O viciado em internet tem falta de interesse em atividades que sejam realizadas fora da rede ou longe do mundo digital.

Sonho
Sensação de estar vivendo um sonho, durante um período prolongado na internet, é comum no dia-a-dia da pessoa com compulsão ao acesso.

Tempo
Tempo exagerado de conexão, aliado à má qualidade do uso da internet, é uma constante na vida do viciado. A forma da utilização da internet é o elemento determinante para definir se o indivíduo é viciado ou não.

Temas
Os temas abordados normalmente pelo indivíduo são relacionados, de forma direta ou indireta, com a própria internet.

 

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