Quando a vontade de viver é grande o câncer se torna um aprendizado e não um obstáculo

DSC_0774-2Simone não se assustou com o diagnóstico positivo, a dificuldade estava em contar para a família

Somos carregados numa charrete por três cavalos. Um é o corpo, o outro a mente e por último o espírito, para que eles andem na mesma direção e velocidade é preciso que o dirigente saiba conduzi-los. Se não houver equilíbrio, cada cavalo vai para um lugar e aí a charrete cai e nos leva para o chão. A sorte dessa condutora que vou contar agora foi a preparação espiritual que ela teve. Ela sempre soube que manter os cavalos alinhados proporciona um passeio mais seguro e tranquilo, mas ás vezes, os ventos são fortes e manter-se estável pode ser uma tarefa complicada.

Quando a surpresa – uma forte ventania – chega, não tem lugar, hora e nem dia.

Foi num consultório médico, em novembro de 2014 que fazendo os exames de rotina sem ter nenhum sinal de algo diferente, ela descobriu que tinha um nódulo na tiroide. Uma notícia muito difícil de receber e repassar. Mas não estava sozinha, o marido que a acompanhava e também realizou os exames descobriu que tinha o mesmo nódulo, ambos de nível quatro, com 50% de chance de ser benigno ou maligno. Mesmo sabendo que tinham câncer, o médico os deixou tranquilos ao explicar que esse tipo de nódulo não dá complicações, só é preciso operar e fazer tratamentos com iodo. Um alívio, a surpresa que tinha começado ruim, guardava um final esperançoso.

Se não fossem as curvas do destino, a vida dela tinha data marcada para voltar a rotina novamente, 27 de abril de 2015 quando realizaria a cirurgia. Porém, nada é como se espera. Quinze dias antes da operação, numa tarde de domingo voltando de um passeio com o marido, colocou a mão perto da axila e sentiu um caroço com o tamanho de uma bola de pingue pongue. Se o câncer na tiroide não causava complicações, o que seria aquilo?

No consultório médico – mesmo local onde recebeu a primeira surpresa – ouviu do médico a possível chance de ser um câncer de mama. Fez os exames e ao abrir o laudo – mais uma forte ventania – teve a confirmação. Agora ela tinha dois tipos de câncer, dois fardos, dois tratamentos e apenas uma chance de decidir o que seria dali pra frente.

Até aqui a história dela é bem semelhante as das diversas mulheres pelo país que sofrem da mesma doença. Ter uma resposta tão importante num pedaço de papel, nos faz entender quão frágil somos a ponto de não podermos fazer nada se ali estiver escrito: positivo. Mas Simone Pinto Bittencourt Barbosa, de 45 anos, que é mãe, esposa e filha não quis tornar sua história apenas mais uma. Ela que é terapeuta holística e sempre ensinou seus pacientes a comandar bem os três cavalos, agora se viu na missão de colocar em prática todos os ensinamentos.

A doença não assustou Simone, sem saber como explicar, ela já sabia daquele resultado antes mesmo de abri-lo. Dentro dela, no primeiro instante, os cavalos estavam bem conduzidos, eles já sabiam que o roteiro de viagem mudaria, mas que boas coisas poderiam ser encontradas nesse novo caminho.

Durante os dois minutos que ficou dentro do laboratório olhando para aquele diagnóstico, muitas coisas passaram pela sua cabeça, como contar para a família, como lidar com o sofrimento deles. De que maneira ela iria levar a vida. Das coisas que ela teria que abrir mão. Dos cabelos enrolados que sempre foram motivo de auto estima, agora seria a prova de que é possível ser mulher e vaidosa sem eles.  Simone que nos últimos dois anos, notou que a maioria de seus pacientes eram mulheres que estavam passando pelo câncer e não estavam conseguindo equilibrar seus cavalos, agora entende que a vida já estava a preparando, primeiro ela ensinaria àquelas pessoas a passar pela doença e depois estaria forte o suficiente para encará-la. Ela que sempre recebeu muito bem uma mudança, que adora a sensação de não saber o que o amanhã reserva, quando abriu o resultado entendeu o real significado de mudar. Mudar o visual, a rotina e a vida dos que estavam ao seu redor.

A partir daquele dia, a vida da terapeuta era um carrinho numa montanha russa. Alguns dias o otimismo era forte, e tinha certeza de que tudo daria certo e que seria possível tirar um aprendizado daquele momento. Já em outros, o carrinho descia e ela ficava se questionando sobre o medo de perder as pessoas que amava e a vida feliz que tinha.

DSC_0788-2A partir dos vídeos, hoje Simone recebe histórias de pessoas de outros países

Após fazer a cirurgia para retirar o nódulo da tiroide e na mama, Simone decidiu que tinha que tirar algo bom dessa nova fase e poder ajudar outras pessoas. As consultas terapêuticas tiveram que ser suspensas, já que a quimioterapia causa um desgaste energético muito grande. Mas ela não desanimou, trocou o consultório pela sala de casa e as conversas pessoais pelas virtuais. Hoje ela tem uma página no Facebook (Diálogos com Simone), onde divulga seus vídeos falando sobre a descoberta da doença, como ela está vivendo após o diagnóstico, mostrando para as outras pessoas que estão passando por esse momento que é possível manter os cavalos alinhados, apesar de todas as ventanias inesperadas que acontecem durante esse trajeto. E muitas mulheres viram na terapeuta um suporte para enfrentar o câncer, ela recebe muitas mensagens de diversos lugares do mundo e começou a acompanhar a vida de muitas de suas seguidoras.

O câncer é um momento difícil, sofrido, frágil, mas que pode ensinar muito. Simone aprendeu a parar, respeitar o tempo dela. Ela que sempre fez as coisas sozinha, que já foi para a Índia como mochileira, hoje precisa da ajuda dos amigos e familiares para ir ao hospital. Ela reconhece que mover a vida das pessoas, é um exercício muito grande de humildade.

Ela que veio de um processo físico, que em 2011 pesava 112 quilos e por ser adepta a mudanças resolveu ter uma vida mais saudável, mudou sua alimentação, começou a praticar exercícios físicos, e com isso emagreceu 32 quilos. As caminhadas matinais, corridas e aulas de boxes tiveram que encerrar com a abertura do diagnóstico. Algumas semanas atrás ela voltou para academia e teve que começar do zero, com outros exercícios, tudo mais devagar. Paciência, saber recomeçar, o câncer está mostrando outras prioridades para Simone!

Ela aprendeu muito com o câncer, mas sem dúvida está dando muitos frutos com a sua positividade e humildade em repassar seus ensinamentos para os outros. Quem tem a oportunidade de sentar e conversar com essa mulher, não sai com o pensamento de vida da mesma forma que entrou, ela passa uma força, uma energia muito boa, a ponto de te fazer refletir e se perguntar por que reclama tanto, por coisas tão pequenas.

DSC_0783-2Tirar o cabelo, o que no início a deixou triste, foi a oportunidade de descobrir quem ela realmente é

A vida tem mesmo suas surpresas, a terapeuta nunca foi de se programar, sempre preferiu deixar as coisas acontecerem.  E hoje mais do que nunca, não se preocupa com o amanhã, ou até mesmo com o daqui algumas horas. Ela está ocupada demais vivendo, sendo feliz e aproveitando para aprender alguma coisa boa agora.

Seus cavalos podem até ter se sentido perdidos no começo com a mudança no trajeto, mas hoje com certeza eles estão mais seguros de que cada dia há uma nova curva a se fazer, e o que o outro lado esconde é sempre uma surpresa. Morros, estradas tranquilas, congestionamentos, montanhas, dias de muito sol ou com uma forte tempestade, a vida é isso. Não dá para sofrer pelo amanhã, não estamos seguros se vamos viver até lá. Nossa única certeza é o agora!

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