Ouvir um não como resposta nem sempre é ruim
Reportagem

Ouvir um não como resposta nem sempre é ruim

MCvsBKBurger King fez proposta ousada para Mc Donald’s | Imagem: Marcos Fernandes

Sabe quando você acorda disposto a se reconciliar com alguém? Você quer apagar as brigas do passado, esquecer os ressentimentos e começar uma nova fase. Para marcar essa reaproximação, nada melhor do que preparar uma surpresa daquelas que vai deixar esse alguém de queixo caído. Uma surpresa para que as pessoas ao redor soubessem o tamanho da sua vontade de reconciliação e que faça com que ela se torne malvada, caso não aceite seu pedido de esquecer os momentos não tão bons e dar início a uma nova relação.

Essa era a intenção da rede de fast-food Burger King  nesta quarta-feira (26). Trazer seu concorrente Mc Donald’s para mais perto, acabar com a “guerra” entre as marcas, e “cessar-fogo” em prol da paz mundial que é comemorada no próximo dia 21.

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Para a bacharela em Comunicação Social Audrey Oliveira essa iniciativa foi equivocada. “Eu no lugar do Mc Donald’s nem responderia, foi uma ação infantil, se houvesse o interesse real, essa conversa seria em primeiro lugar com os executivos e somente depois seria divulgada”, afirma a professora de Marketing. Porém, para o publicitário Bruno Cesar essa alfinetada no rival serviu para movimentar o mercado, vendo que os dois estavam bem estabelecidos um de cada lado, com uma concorrência direta, mas pacífica. “O que ele [Buger King] fez foi dar um passo para dentro do território do Mc”, observa Cesar que diz que no ponto de vista de marketing, essa ação é muito agressiva e bem interessante já que é permitido falar ou interagir com a marca.

carta abertaImagem: Reprodução/ mcwhopper.com

Mas para a surpresa de muitos que aguardavam ansiosos a resposta da gigante de Ray Kroc, a resposta foi um fatídico ‘Não’. E aí, é claro que o Mc Donald’s logo se tornou o vilão do dia nas redes sociais. Bruno Cesar entende que o Burger King usou um pretexto de uma comunicação voltada para um bem maior que é a paz entre as marcas, mas que o objetivo era outro. “Na verdade ele fez com que agora a visão que as pessoas tenham é que o Mc Donald’s não é legal e ele sim”, explica o analista de mídia online que ressalva que a percepção das pessoas muda só com uma jogada de marketing.

Muitos criticaram a forma como o CEO Steve Easterbrook respondeu a sugestão de unir os principais ingredientes dos mais famosos lanches de cada um, criando então o “McWhopper” que seria vendido num único restaurante especialmente projetado, localizado em Atlanta, nos EUA.  A estudante de Publicidade e Propaganda, Maria Clara Mendes concorda com a rejeição da empresa de fast-food. “Penso que pelo tamanho da marca eles responderam corretamente”, mas se ela fosse dona da corporação a resposta seria outra. “Eu aceitaria sim, seria praticamente um acordo de paz mundial”, diz a jovem.

mcResposta que o Mc Donald’s deu ao Burger King | Reprodução / Facebook

A desaprovação foi rígida e direta. Talvez o erro more aí. A seriedade no tom usado pelo Mc Donald’s deixou os internautas confusos, já que o BK queria apenas deixar as diferenças de lado para celebrar a paz junto ao seu concorrente. Para Audrey Oliveira o MC Donald’s em sua resposta fez questão de impor sua soberania (tendo ou não). “A resposta pode ser vista como arrogante, porém mais arrogante foi a iniciativa de usar o nome da concorrência sem nenhum tipo de autorização da mesma”, defende. O universitário Tiago Mariano também diz que mesmo que tenha parecido grosseira, a empresa deu a melhor resposta. “Ele está certo, não tem que se juntar a uma marca concorrente para formar um dia, mas o ‘não’ poderia ser dito de uma maneira mais educada, mais leve” completa Mariano.

O McDonald’s é a maior rede de lanchonetes do mundo, com mais de 35 mil estabelecimentos. Só na América Latina a empresa teve um faturamento de US$ 4,03 bilhões em 2013 e o Brasil foi responsável por US$ 1,842 bilhão, ou seja, 45,7% do total registrado. Por ter um posicionamento tão grande no mercado, a empresa não deve se preocupar com esse episódio, mesmo com o alvoroço produzido na internet. “Essa visão apresentada nas redes sociais é muito instantânea, repercute por uns dias, e depois cai no esquecimento, o público alvo de cada marca não se importa com esses comentários vazios”, explica Audrey.

mcwopperPostagem em que o Burger King anunciou a proposta

O que não dá para negar é a ousadia do Burger King em chamar para perto um concorrente como o Mc Donald’s. O que a maioria conseguiu enxergar é que foi um pedido de trégua, amigável, sem segundas intenções. Poucos conseguiram entender que muito além de fazer uma boa ação, querer dar uma pausa na concorrência e comemorar a paz, o Burger King estava querendo era cutucar o rival e colocá-lo contra a parede. Na visão de Gabriel Jorge, estudante na área de publicidade, o que o Burger King fez foi uma grande jogada de marketing. “Mesmo que o Mc respondesse favorável, a atenção seria destacada ao BK pela iniciativa e criatividade”, mas Jorge observa que o Mc Donald’s poderia ter aproveitado melhor a oportunidade, já que a resposta áspera ao convite gerou um impressão negativa para a empresa. “Gerou um boom de conversas sobre o assunto, mas o Mc acabou sendo o insensível da relação”. Essa foi a percepção do Bruno Cesar também, olhando como profissional ele recusaria o pedido de paz do concorrente. “Não aceitaria, porque eu sou o melhor, sou maior, e não quero fazer parceria com o segundo colocado”, mas como cliente ele tem outra opinião. “Como pessoa que iria provar, eu queria, porque a mistura de hambúrguer explodiria a internet no dia que lançasse”.

A vida é assim, ás vezes passamos dias e mais dias planejando uma surpresa para agradar uma pessoa e tentar reiniciar uma relação e esse alguém simplesmente te manda uma resposta seca, simples, dizendo que um telefonema resolveria. Você leva um toco, é consolado por milhares de pessoas, ganha a fama de bonzinho. Agora está tudo certo! Você é o caridoso e o concorrente é o malvado. Suas curtidas aumentaram significativamente e seu nome está em todas as mídias. Missão cumprida. Não a de paz, mas sim a da jogada de marketing. Calma, não comece a comemorar. Muitas vezes a vingança chega, e para o Burger King ela tem até nome: Giraffas! Agora resta saber se a proposta de paz do BK vai além do alcance as grandes redes como o Mc Donald’s e atinge também as que tem participação mais humilde no mercado.

girafas

Giraffas soube aproveitar do momento, agora aguarda-se uma resposta do Burger King | Reprodução / Facebook

Eu me chamo Flávia do Carmo

2 thoughts on “Ouvir um não como resposta nem sempre é ruim

  1. Cara Flávia,
    Primeiramente uma boa noite. Como digo está de parabéns pelas suas reportagens! Grandes entrevistas e grandes comentários sempre colocando a notícia em grande destaque que não dá pra deixar de ler. Felicidades sempre nessa jornada maravilhosa. Grande abraço.

    1. Olá João, fico agradecida pelas palavras!
      Obrigada pela companhia e volte sempre.
      Beijos.

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