286 injeções em busca de um sonho
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286 injeções em busca de um sonho

12144866_542260982596485_5618921834940895220_n - CopiaA família Teixeira só ficou completa com a chegada da tão sonhada filha | Fotografia: Monique Oliveira

Muitas mulheres têm um sonho em comum: o de se tornarem mãe! A advogada Natália de Cássia faz parte desse grupo e quando descobriu que carregava consigo uma segunda vida a alegria invadiu a família toda, mas o medo e a preocupação também se fizeram presente. Foram meses de luta, de se apegar a Deus e manter a fé, trazer mais um morador para a casa era o sonho dela e do marido Rafael Texeira, e vencer essa batalha merecia uma comemoração diária.

Tudo começou em 03 de setembro de 2011 quando eles deram início a vida de casados, quando selaram o amor com aliança, juras, o desejo de formar uma grande família e se tornarem pai e mãe. Mas com três meses de casada, numa consulta de rotina, a advogada descobriu que tinha endometriose, o que poderia a prejudicar a ter filhos, caso demorasse para engravidar. Cinco meses depois, ela e o marido decidiram que estavam prontos para aumentarem a família. Natália engravidou, mas depois de 1 mês sofreu um abordo espontâneo. A felicidade do positivo tinha se tornado decepção. O primeiro guerreiro venceu 4 semanas de batalhas, mas infelizmente, não chegou ao fim.

A jovem foi ao médico e foi informada de que o ocorrido era uma seleção natural do organismo. Passados dois meses, ela engravidou novamente, a gestação estava seguindo bem, ela fez ultrassom, ouviu o coração e contemplou seu filho formado dentro de si, dessa vez ela viu que ali em em seu ventre havia um ser humano e que ele logo ganharia vida e seria a alegria da família, a barriga cresceu e no terceiro mês de gestação, numa consulta rotineira veio a revelação, a criança havia falecido fazia duas semanas. Essa perda foi mais dolorida, já que dessa vez ela acreditava que tudo daria certo, e que logo teria seu filho nos braços. E a dor aumentou quando ela teve que ir para o hospital fazer curetagem. Ficar na maternidade, escutar o choro de outras crianças a fazia sofrer mais ainda pela perda do segundo guerreiro que lutou 10 semanas, mas infelizmente, não chegou ao fim.

Depois de duas batalhas perdidas, Natália decidiu que não queria mais. O medo a perturbava, mas a curiosidade também. Ela sempre se perguntava o porquê daquilo estar acontecendo, mesmo o médico dizendo que até três abordos era normal, ela não queria e não tinha forças para perder mais um filho.

12244371_512891225545127_9158703120962372047_o - CopiaNatália e Rafael são testemunhas do milagre e do amor | Fotografia: Monique Oliveira

Alguns estudos foram feitos para tentar achar a solução do problema. Decidida, foi a um médico na cidade de Taubaté que depois de realizar diversos exames, ela descobriu que sofria de trombofilia e que o fato do sangue congular, os nutrientes poderiam não ter chegado para a criança e então a placenta sofreu um infarto, mas que essa doença poderia ser solucionada tomando AAS. Achando que o problema estava resolvido, Natália tomou medicação e vitaminas por um ano. Diferente das outras vezes, dessa, a jovem demorou para engravidar e novamente o medo começou a perturbá-la, o pensamento de que agora além de perder, ela também não conseguiria mais gerar uma vida a perseguia. Mesmo tentando ter uma rotina normal, as questões sem respostas não saiam da mente dela, e por desespero ela começou a tomar remédios para voltar a ovular e conseguiu engravidar, só que novamente ocorreu o abordo espontâneo. O terceiro guerreiro, também não conseguiu chegar ao fim, infelizmente.

Nesta época Natália trabalhava no conselho tutelar e presenciava muitas mães que não queriam seus filhos e davam a guarda para o pai, outras vezes abandonava-os nas ruas e o serviço da advogada era acolher essas crianças num abrigo. Certa vez, encontrou uma mãe que maltratava o filho de dois anos e aquilo a revoltou, ela não entendia o porquê daquelas  mães abandonarem seus filhos e ela que tanto queria se tornar mãe não conseguia realizar esse sonho. Por um período, a jovem ficou chateada com Deus, por não conseguir compreender o que havia de errado com ela e porque estava passando por aquilo tudo.

12243379_546800852142498_4883947550684115176_n - CopiaForam 286 injeções e 7 vacinas para tornar real o desejo de ser mãe | Fotografia: Monique Oliveira

Foi então que decidiu que talvez as respostas para suas perguntas estivessem há mais de 270 quilômetros de casa, mais precisamente em Campinas. Ela já tinha ouvido falar da clínica do Dr. Ricardo Barini que é especialista em abortos recorrentes e decidiu que teria que tentar encontrar uma solução, independente da distância. O desejo da maternidade não tinha limites enquanto não se tornasse realidade.

Com todos os exames na mala, Natália e Rafael foram para Campinas, a esperança de formar uma família estava renascendo. Chegando lá, Dra. Isabela Machado confirmou a trombofilia que é um caso hereditário e que somente AAS não resolveria, que seria necessário aplicar heparina, que é anticoagulante, todos os dias na barriga até um dia antes do parto. A luz no final do túnel apareceu e clareou aquela escuridão, aquele medo, aquela tristeza, trazer ao mundo um ser humano estava mais próximo da realidade. Mas a médica acreditava que havia uma outra causa pelo quadro clínico da advogada, possivelmente uma complicação no sangue do casal que podia ser compatível demais.

Natália e Rafael são de fato almas gêmeas, inclusive de sangue, se um tivesse que doar algum órgão para o outro não teria rejeição alguma. Acontece que para a reprodução humana tal situação não é favorável,quando engravidava, devido a semelhança entre o sangue dos dois, o organismos não os distinguia na formação do bebê, os considerando um. Dessa forma, as pequenas diferenças entre os sangues, eram tratados como ameaça e o organismo rejeitava o sangue do pai.

Agora eram duas lutas, duas batalhas. Antes de começar o tratamento com as injeções de heparina, primeiro Natália teria que tomar vacina do sangue do marido para tratar da compatibilidade. O casal saía de Queluz ás 3 horas da manhã e chegava em Campinas quatro horas depois. Todo esse esforço para tirar sete vidros de sangue do Rafael e injetar no braço da esposa. Eram necessárias três picadas das quais ardiam demais, como se fosse um enxame de abelha, mas ela suportava tudo por acreditar que o sonho de ser mãe estava perto, mesmo que fosse dolorido e cansativo valeria a pena quando pudesse pegar nos braços o filho que ela tanto vem lutando para trazer ao mundo.

O sangue dos dois é tão parecido que, o normal para a mulher é 75% de bloqueador de sangue do pai da criança. No caso da advogada, ela tinha apenas 1,2% então até chegar aos 75% foram preciso tomar três doses a cada quinzena. Três vezes dor, três vezes o braço vermelho e coçando, mas as dificuldades ficaram pequenas quando descobriram que o bloqueador de sangue havia chegado a 95% e que finalmente, em dezembro de 2014 Natália estava liberada para engravidar. A esperança já ganhava força e montando a árvore de natal, ela disse ao marido que aquele seria o último natal que eles passariam sem um filho ou uma filha nos braços.

12247900_512891302211786_3233501999078747631_o - CopiaDepois de mais de três anos lutando, a vitória chegou | Fotografia: Monique Oliveira

Em 11 de fevereiro de 2015 a notícia tão esperada chegou, o positivo do teste de gravidez tinha um gosto especial, um sentimento de que a batalha seria árdua, porém compensadora. Após a confirmação, mais quatro doses da vacina foram necessárias, uma a cada mês da gestação. Além da vacina, assim que descobriu que tinha um ser humano dentro de si, Natália começou a tomar as injeções de heparina todos os dias na barriga para ajudar o sangue a ficar fino e levar os nutrientes para o feto.

Desde que recebeu o positivo, a jovem tinha que lutar contra seus pensamentos, já que o espírito de morte sempre a afligia. Ela tinha que acreditar que tudo daria certo, tinha que acordar e crer que aquele dia seria mais um que iria passar.

A advogada se manteve firme na fé, nos momentos em que ela ficava fraca,  a família sempre a manteve em pé, fortalecendo-a.

O marido era a principal fonte de energia e coragem, ela agradecia a Deus por ter colocado no caminho dela um homem que gostasse tanto de crianças, porque isso não a deixava desistir, ela olhava Rafael brincando com os sobrinhos e via nos olhos do marido o desejo que ele tinha de se tornar pai e essa era a motivação que ela tinha PARA continuar.

Mas o medo se fez presente com mais força, quando foi se aproximando da décima semana, já que os demais guerreiros nunca passaram desse tempo de luta, nessa fase a família toda tinha que acreditar que não receberiam um ‘NÃO’ de novo. Por isso, ela foi em psicóloga, passou por oração, se firmou na fé, E ao mesmo tempo se afastou de tudo, preferiu ficar de repouso, abandonou a vida, o trabalho, deixou de dirigir. Natália parou de viver para dar vida a outro alguém.

E no meio de todas as dificuldades e preocupações, a advogada teve que enfrentar mais uma: a epidemia de dengue na região. Na época da gestação, ela não poderia pegar a doença de forma alguma, já que o AAS da heparina é justamente o medicamento que não se pode tomar quando se tem dengue. Então, caso contraísse a doença teria que escolher ou tomar a heparina para o neném continuar vivendo ou morrer, já que o sangue dela estava muito fino por conta da injeção e poderia causar uma hemorragia. Mas pela graça de Deus, essa difícil escolha não foi preciso ser tomada.

12235126_514258248741758_5701995066074329040_n - CopiaNatália e Rafael conseguiram realizar o desejo de se tornarem pais | Fotografia: Monique Oliveira

Foram 36 semanas e 5 dias de muita intensidade, lutando diariamente por uma vida, lutando para chegar ao fim, lutando para vencer. E venceu.

Beatriz, o nome da pequena guerreira, enfrentou tudo com garra e ganhou. Veio ao mundo no dia 28 de setembro de 2015 ás 08h35min da manhã. A advogada lembra do choro da filha e se emociona ao dizer que o coração acelerou, o choro tomou conta do momento e foi ali, que depois de lutar dia após dia para trazer ao mundo a tão sonhada filha, ela pode dar um suspiro de alívio e agradecer a Deus por ter vencido.

E desde que Beatriz nasceu muitas coisas mudaram, a rotina dos pais, o sono que agora desperta com qualquer resmungo no meio da madrugada. Mas era disso que Natália sentia falta, antes de qualquer realização pessoal ou profissional ela tinha o sonho da maternidade, o caminho foi difícil, longo e com diversos altos e baixos, mas tudo foi necessário para entender o tempo de Deus, o tempo certo das coisas acontecerem e mais ainda, foi necessário para ela fortalecer esse sonho e entender que não é simplesmente a vontade de ser mãe, é preciso ter o dom de ser mãe e todas essas tribulações serviram para isso, para Natália fortalecer o dom.

Já a escolha do nome tem um significado muito além, Beatriz vem de beatos, abençoada, a que traz alegria. Um nome que descreve toda a trajetória dessa família, uma filha que trouxe felicidade para os pais que lutavam por ela antes mesmo de conhece-la.

A Beatriz foi muito desejada. Depois de três abortos, três natais, três dias das crianças, dos pais e das mães, ela chegou para testemunhar que Deus não falha e que quando pensamos que Ele não nos escuta, ele está trabalhando para a nossa alegria, para o nosso sonho. Não importa se demorará um mês, um ano ou quatro. A mãe garante que não se arrepende de nada, que se picaria novamente. Natália e Rafael sofreram, choraram, mas não perderam a fé e foi esta que os fez permanecerem no caminho, na guerra, na batalha e vencerem, hoje o casal celebra todos os dias a vida da filha.

12240391_512891205545129_7389779448976137257_o - CopiaBeatriz trouxe felicidade para toda a família | Fotografia: Monique Oliveira

Eu me chamo Flávia do Carmo

18 thoughts on “286 injeções em busca de um sonho

  1. Poxa, que história de vida! Isso me deixa realmente muito emocionada! 🙂 Lindo post!Por mais matérias como essa que precisamos na internet! Parabéns! Um beijo, sucesso!

    1. Olá Gi, que felicidade ler seu comentário!
      Emocionar as pessoas é uma tarefa difícil, mas tão gratificante <3
      A história de vida da Beatriz é linda e inspiradora, nos faz acreditar ainda mais nos nossos sonhos!
      Obrigada pela visita e espero te ver aqui mais vezes, beijo!!!

    1. Olá Monique, agradeço pela visita e espero te ver por aqui sempre!
      A história dessa família é iluminada! É a prova de que Deus não falha nunca!
      Beijos 😉

  2. Voltando ao seu blog porque sou realmente admiradora do seu trabalho, aqui foi exposta uma historia de amor, de luta, fé e perseverança sob a ótima humana e sensível de uma grande pessoa: você Flávia.
    Ainda bem que esta família teve recursos pra seguir num tratamento doloroso em busca do sonho de serem pais, muitos infelizmente não teriam condições de arcar com este tratamento.
    Tantas perdas, dores mas enfim a linda Beatriz chegou.
    Parabéns! bjs
    http://www.pilateandosonhos.com

    1. Oi Lu, que maravilha te ver por aqui novamente <3 <3 <3
      A história da Beatriz é de encher os olhos de lágrimas mesmo.
      É uma pena que algumas famílias realmente não têm condições de realizar o tratamento e com isso, trazer um filho ao mundo!
      É triste essa realidade :/ Mas espero que a história da Natália e do Rafael possam motivar as pessoas a nunca desistirem dos sonhos, sejam eles quais forem!
      Beijos Lu, volte mais vezes!

    1. Olá Carol, fazer o que se ama é essencial!
      Realmente são raros os blogs que não abordam esses segmentos de moda e beleza, eu adoro esses assuntos, mas não entendo o bastante para abordá-los no blog 🙂
      Beijos e volte sempre!

    1. Olá Gi!
      A história da Beatriz é maravilhosa mesmo!
      Obrigada linda, volte mais vezes!!!

  3. Linda história me emocionei muito,tive a oportunidade de conhecer a Natália e ela me contou um pouco dessa linda história, que Deus abençoe cada vez mais essa família e a princesinha Bia?

    1. Obrigadaaa!
      Beatriz é fruto de muito amor, perseverança e fé, uma história linda e emocionante mesmo!
      Beeijos e volte mais vezes 🙂

  4. Que história maravilhosa.. Parabéns!!
    Muitas felicidades para a Beatriz e sua família

    1. É uma história que eu não canso de ler 🙂
      Obrigada pela visita e volte sempre!
      Beeeijos!

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